MUDAMOS DE ENDEREÇO

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Quindins na portaria - Martha Medeiros




Estava lendo o novo livro do Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde, numa de suas prosas poéticas, ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio do Mario Quintana: ‘Para estar ao lado sem pesar com a presença’.
Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nesta frase porque o não pesar os outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade.
Para a maioria das pessoas, isso que chamo de um raro estalo de sensibilidade tem outro nome: frescura. Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individualista e solitário.
Ah, pesa.
Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados. Eu bato na porta antes de entrar no quarto das minhas filhas e na de meu próprio quarto, se sei que está ocupado.
Eu pergunto para minha mãe se ela está livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone. Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências tive a sorte de que fossem delicadas.
Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do Messias, o que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando.
Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito.
Pessoas estão se amando. Avise que está a caminho.
Frescura, jura? Então tá, frescura, que seja.
Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribuí-los sabendo que nada interromperei do lado de lá. Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade. Dizemos pelo computador coisas que face a face seriam mais trabalhosas.
Por não ser ao vivo, perde o caráter afetivo?
Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios. Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela. Quando mando flores, vou junto com o cartão.
Já visitei um pequeno lugarejo só para sentir o impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto.
Sendo assim, bilhetes, e-mails, livros e quindins na portaria não é distância: é só um outro tipo de abraço.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Encontro com o passado - Elysio Lugarinho Netto


"E por falar em saudade, onde anda você... "
Ele atravessou a rua e a viu mais adiante. Mary. Loiríssima, linda, na calçada, junto ao meio-fio, parada. Os anos não mudaram o seu rosto.

- Não acredito! Foi cerimoniosa. Enrubesceu.
- Você por aqui?
- Moro nesta cidade. E você?
- Estou passando dias, aproveitando o frio.
- Sei... E o que tem feito?
- Ih... O meu marido chegou!
Ela entrou no automóvel. Com o olhar, ele acompanhou seu passado até dobrar à direita, no final da avenida. Resmungou:
- Maldito Porsche, acelera de 0 a 100 em 5 segundos.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Despedida do TREMA - Colaboração Alexander Striemer


Como outros já fizeram, quero também me despedir do trema, cuja morte foi anunciada por decreto a partir de 1º de janeiro:

Não uma, mas cinqüenta e cinco vezes, quero me despedir desta acentuação antiqüíssima e usada com tanta freqüência. Fomos argüídos a respeito?
Claro que não! A ambigüidade que tínhamos para decidir se queríamos usar o trema ou não numa frase nos foi seqüestrada para sempre. Afinal, a ubiqüidade do trema nunca nos foi exigida.

Quem deve se beneficiar com esta tão inconseqüente medida? Creio que tão somente os alcagüetes, os delinqüentes e os sangüinários, justamente aqueles que não estão eqüidistantes, como nós, dos valores eqüiláteros da Sociedade.

Vocês já se argüiram sobre as conseqüências do fim do trema para os pingüins, os sagüis e os eqüestres? Estes perderão uma identidade conquistada desde a antigüidade.

E o que dizer do nosso herói Anhangüera, que vivia tranqüilo com o seu nome indígena? Com a liqüidação do trema, a pronúncia do seu nome não será mais exeqüível.
Os nossos papos de chopp nunca mais serão os mesmos, pois a tão freqüente lingüicinha acebolada vai desagüar num sangüíneo esquecimento.

O que vai acontecer com o grão de bico com gergelim, agora sem o liqüidificador para prepará-lo?
Ah, meu Deus! Tenha piedade de nós! Nunca mais poderemos escrever que "a última enxagüada é a que fica"!

Não sei se vou agüentar a perda da eloqüência, em termos de estilo literário, que o trema trazia à Última Flor do Lácio.
É preciso que averigüemos se haverá seqüelas futuras! E para onde vai a grandiloqüência dos lingüistas?
Haja ungüento para suportar tamanha dor!

O que podemos esperar em seqüência? Será que não se poderia esperar mais um qüinqüênio para que fossem melhor avaliados os líqüidos benefícios desta mudança?

Portanto, pela qüinqüagésima vez, a minha voz exangüe se une à dos bilíngües e trilíngües como eu, cuja consangüinidade lingüística e contigüidade sintática se revolta ante tamanha iniqüidade.

Pedir que nos apazigüemos, para mim é inexeqüível, pois falta-nos tranqüilidade diante de tamanha delinqüência gramatical.
Portanto é com dor no coração que lhe dou este meu adeus desmilingüido.

Adeus, meu trema querido! Mas pelo menos uma coisa me apazigüa, pois quando a saudade bater, sei que vou poder revê-lo quando estiver lendo alguma coisa em alemão.
Desconheço a autoria, mas a-d-o-r-e-i!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Como pedir uma pizza em 2010 - Luiz Fernando Veríssimo



Telefonista: Pizza Hot, boa noite!
Cliente: Boa noite! Quero encomendar pizzas...
Telefonista: Pode me dar o seu NIDN?
Cliente: Sim, o meu número de identificação nacional é 6102-1993-8456-54632107.
Telefonista:Obrigada, Sr.Lacerda. Seu endereço é Avenida Paes de Barros, 1988 ap. 12 B, e o número de seu telefone é 5494-2366, certo? O telefone do seu escritório da Lincoln Seguros é o 5745-2302 e o seu celular é 9266-2566.
Cliente: Como você conseguiu essas informações todas?
Telefonista: Nós estamos ligados em rede ao Grande Sistema Central.
Cliente: Ah, sim, é verdade! Eu queria encomendar duas pizzas, uma de quatro queijos e outra de calabresa...
Telefonista: Talvez não seja uma boa idéia...
Cliente: O quê?
Telefonista: Consta na sua ficha médica que o Senhor sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol muito alta. Além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a sua saúde.
Cliente: É você tem razão! O que você sugere?
Telefonista:Por que o Senhor não experimenta a nossa pizza Superlight, com tofu e rabanetes? O Senhor vai adorar!
Cliente: Como é que você sabe que vou adorar?
Telefonista:O Senhor consultou o site 'Recettes Gourmandes au Soja' da Biblioteca Municipal,dia 15 de janeiro, às 4h27minh, onde permaneceu conectado à rede durante 39 minutos.
Daí a minha sugestão...
Cliente: OK está bem! Mande-me duas pizzas tamanho família!
Telefonista:É a escolha certa para o Senhor, sua esposa e seus 4 filhos, pode ter certeza.
Cliente: Quanto é?
Telefonista: São R$ 49,99.
Cliente: Você quer o número do meu cartão de crédito?
Telefonista:Lamento, mas o Senhor vai ter que pagar em dinheiro. O limite do seu cartão de crédito já foi ultrapassado.
Cliente: Tudo bem, eu posso ir ao Multibanco sacar dinheiro antes que chegue a pizza. Telefonista: Duvido que consiga! O Senhor está com o saldo negativo no banco.
Cliente: Meta-se com a sua vida! Mande-me as pizzas que eu arranjo o dinheiro. Quando é que entregam?
Telefonista: Estamos um pouco atrasados, serão entregues em 45 minutos. Se o Senhor estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas pizzas na moto não é aconselhável, além de ser perigoso...
Cliente: Mas que história é essa, como é que você sabe que eu vou de moto?
Telefonista: Peço desculpas, mas reparei aqui que o Sr. não pagou as últimas prestações do carro e ele foi penhorado. Mas a sua moto está paga, e então pensei que fosse utilizá-la.
Cliente: @#%/§@&?#>§/%#!!!!!!!!!!!!!
Telefonista: Gostaria de pedir ao Senhor para não me insultar... Não se esqueça de que o Senhor já foi condenado em julho de 2006 por desacato em público a um Agente Regional.
Cliente: (Silêncio)
Telefonista:Mais alguma coisa?
Cliente: Não, é só isso... Não, espere... Não se esqueça dos 2 litros de Coca-Cola que constam na promoção.
Telefonista:Senhor, o regulamento da nossa promoção, conforme citado no artigo 3095423/12, nos proíbe de vender bebidas com açúcar a pessoas diabéticas...
Cliente: Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! Vou me atirar pela janela!!!!!
Telefonista:E machucar o joelho? O Senhor mora no primeiro andar!

sábado, 29 de novembro de 2008

Marcas de expressão - desconheço o autor (a) Colaboração da Mariana



















Eu, tirar minhas marcas de expressão?

Qual o por quê de extraí-las se foram elas que me deram expressão?
Limpar da minha vida as tristezas que fizeram traços na minha testa. Não, mil vezes, não!
Prefiro aprender com a minha fronte.
Varrer do canto dos olhos os sorrisos que eu dei, as alegrias que eu tive, é uma forma
estúpida de estética, como se eu fosse alisar minhas experiências, as que eu vivi com muito
custo e honra, apesar de algumas dores.
Esticar minha cara contra a natureza?
Embonecar-me como um brinquedo em série?
Nada disso traz a verdade.
Se daqui a pouco a minha papada estará mole é porque cantei muito,
falei do meu amor pelos quatro cantos do mundo e por todos os cantos da boca...
E se há cabelos brancos foi porque eu comecei a acender melhor minhas idéias.
Se hoje eu não corro e me canso com mais facilidade é porque tenho a vivência de saber que muitos passos

que damos são dados em falso, trôpegos até.
Qtas vezes escorreguei pelas ciladas do "destino"?
Quantos buracos, qtos caminhos errantes, qtas bifurcações.
Minhas pernas seguem mais lentas, todavia precavidas dos acidentes de percurso.
Quando vejo uma pedra, não mais a chuto, deixo que ela fique em seu lugar.
Meus braços não querem tantos músculos definidos e sim, a definição de um abraço afetuoso.
Agora solto mais minha barriga.

Já não tenho mais quase medo.
Já não reteso tanto minhas emoções e nem as guardo no armário embutido do abdômen.
A barriga era mais dura, eu era mais durinha e a vida, pra mim, também já foi muito dura.
Sentia com o estômago.
Apaixonava-me com o fígado, sofria muito pelo intestino.
Pra quê uma barriga lisinha e um ralo de esgotos na cabeça?
Não posso dizer que nunca mais tive emoções tão indigestas.
A diferença é que o alimento que vem dos outros me faz menos mal e a minha digestão é mais segura e confiante.
Apenas ando, caminho com as árvores, as abraço, dou nome a elas. Olho pro céu, hoje, olho pro céu e procuro as estrelas mais próximas, busco as distantes, apesar de não enxergá-las com os olhos. Piso meus pés na terra, seca ou molhada, tanto faz, mas sinto sua pele. Parece incrível sentir o coração do Planeta com os pés. As flores são vistas, outrora, desprezadas. As plantas dormem ao meu lado. Falo com os bichos e escuto suas frases. Antes minha surdez era mais jovem. Posso dizer
que, agora, minha voz, mais rouca e mais fraca, é capaz de dizer que ama com muito mais firmeza e verdade. E como já disseram um dia: Não sou eu quem faz os anos, os anos é que me fazem.
Deixa as minhas marcas de expressão, cada uma em seu lugar. Sinal que já vivi, cada uma delas tem uma história pra contar. Quem sabe um dia eu as conto pra você, quem sabe...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Chá de afeto - Rosa Pena



“Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.”
Vinicius de Moraes

Com tanta tecnologia nesse nosso mundo pra lá de contemporâneo cada vez mais diminuímos distâncias. Virou moleza assistir em tempo real nossos atletas recebendo medalhas do outro lado do mundo, chorar das piadas idiotas na entrega do Oscar, ver famintos de uma África esquecida, sofrer por mais uma bomba explodida em alguma guerra sem nexo, gritar para o Felipe Massa ser campeão.

Visão e audição, dois órgãos dos sentidos dominados pela máquina racional, mas faltam três ou não faltam? Escritores são mestres em imaginação e os roteiros de vida bem conduzidos levam nossas mentes longe. Graças a Deus para nós não falta nenhum!
Assim sendo, sinto mãos macias acariciando meu rosto, um abraço forte de fato. Mas é no odor e no paladar que encontro à quimera que mais me fascina. Sinto cheiros em cada recado que recebo e saboreio letras. Alguns vêm com Alecrim, planta que vive sob o domínio do sol que ama o calor e a vida, outros com alfazema que alivia as dores do coração, tem os de hortelã, erva da amizade e do amor, muitos de jasmim que é eufórico e afugenta a depressão, alguns de maracujá, fruto da paixão.

Nesse meu momento de recolhimento com os aromas e as infusões dos meus amigos ("Um bicho igual a mim, simples e humano"), minha alma fica cheirosa, meu espírito fica doce. Entre menta, cravo e canela começo a sentir a vida mais bela, apesar da chuva insistente ainda bater na janela da minha mente. Mas quem garante que amanhã não virá o sol?

Sobre a Rosa,

Dizem por aí, que amigo virtual é falso, não é verdade, mesmo não conhecendo pessoalmente a Rosa, eu tenho grande afeto por ela, é uma amiga, que a tecnologia me ofertou, conheço-a por foto, pelas suas poesias, suas crônicas e livros e ler os seus textos é sempre um imenso prazer.
Vale a pena ler os textos da Rosinha veja

aqui




sábado, 14 de junho de 2008

Boas Lembranças! No texto da poetisa Rosa Pena

Saudades...ando com saudades!

Rosa Pena


Ando com saudades de café com pão, de namorados dando beijinhos no portão, de pedir bênção a pai e mãe, (Deus te abençoe), do sinal da cruz que fazia quando passava na frente da igreja, de ver um varal cheio de roupa com cheiro apenas de sabão, de ver alguém sorrindo enquanto lava a louça com bucha vegetal, de sentir respeito pela policia, de cantar o hino Nacional com mão no peito e lágrimas nos olhos, de acreditar que o Brasil ganhou a Copa do Mundo porque jogou direito, de saber que o Zezinho filho do porteiro não vai morrer de dengue e que Maria feirante poderá ter um filho médico. Saudades de homens que usavam apenas o assobio como galanteio.Fiu-fiu!

Morro de saudades do tempo em que um presidente de uma nação era o mais respeitado cidadão do país.Que cadeia era lugar só de ladrão. Acho que andaram invertendo a situação.

Ando com saudades de galinha de galinheiro, de macarrão feito em casa com tempero sem agrotóxico, de só poder tomar guaraná em dia de festa, de homens de gravatas, de novela com final feliz, de pipoca doce de pipoqueiro, de dar bom dia à vizinha, de ouvir alguém dizer obrigado ao motorista e ele frear devagarinho preocupado com o passageiro. Saudades de gritar que a porta está aberta para os que chegam. Um saco destrancar tanto papaiz.

Saudades do tempo em que educação não era confundida com autenticidade. Hoje se fala o que quer, em nome de uma "tal" verdade e pedir perdão virou raridade.

Ando com saudades de ver no céu pipas não atingidas pelo efeito estufa.

Saudades das chuvas sem acidez, que não causavam aridez. Saudades de poder viajar sem medo de homem bomba, de ser recebida com pompa em outra nação.

Atualmente reina a desconfiança no coração.

Sinto muitas saudades do rubor das faces de minha mãe, quando se falava de sexo totalmente sem nexo.

Hoje ele é tão banal que até eu banalizei.

Acho que a maior saudade que tenho é a saudade de tudo que acreditei.

Para minha filha não poderei deixar sequer a esperança. Hoje já não se nasce criança.

Obrigada Rosa, pela sua colaboração

Livro PreTextos/rosapena
2003


Rosa Pena (Rio de Janeiro-RJ). Professora e administradora de empresas. Especialista em recursos audiovisuais e artes cênicas. Trabalhou na Divisão de Multimeios da Educação na Secretaria de Educação e Cultura do Rio de Janeiro, com projetos ligados a cinema, teatro, música e literatura. Compulsiva para ler e escrever considera a Internet a grande biblioteca contemporânea. Tem diversos livros virtuais publicados e quatro livros editados no papel: Com licença da palavra, antologia do grupo Pax Poesis Encantada (Editora Scortecci, 2003), Virtualismo (antologia da ABVL), PreTextos seu livro solo, onde reúne mais de cem crônicas de sua autoria (Editora All Print, 2004), UI! seu mais novo livro (editora Bagatelas, 2007), onde reúne seus contos, crônicas e poesias do dia-a-dia. Mais em seu site: www.rosapena.com





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